Em 1914, os recém casados Ayub Sarkis, com 28 anos, e Baduía Bechara Sarkis, com 26, deixam a cidade de Beirute, no Líbano, em direção ao Brasil. Foram três meses de viagem de navio até o desembarque no Rio de Janeiro. Quando chegaram, vieram diretamente para Pouso Alegre onde já se encontravam alguns parentes.
No Brasil, tiveram 11 filhos. Rosa, Nascin, Afife e Farid, que continuam em Pouso Alegre; Sarkis e Isabel, que estão em São Paulo; Sarah, Antônio, Martha e Raquel, que já faleceram.
Ayub já trabalhava com comércio no Líbano e no Brasil continuou o ofício. Montou uma loja chamada Monte Líbano, onde hoje está o Supermercado Central. A loja vendia tecidos, chapéus e outros artigos.
Ayub também era caixeiro viajante. Quando o movimento na loja diminuía, montava em seu burro e saía pelas fazendas mascateando. Comprava as mercadorias em São Paulo. O filho de Ayub, Nascin Sarkis, 86, conta que o pai tinha muita dificuldade com a nova língua, mas mesmo assim conseguia se comunicar e, principalmente, negociar. “Meu pai vendia para os fazendeiros, que sempre pagavam no mês seguinte, mas ele não sabia escrever para fazer as anotações necessárias. Ele marcava somente o valor. Pelo valor ele sabia de quem era a conta. Ele vendia nestas condições e não tinha prejuízo”, conta Nascin. O imigrante seguiu a atividade de mascate por muito tempo até que os filhos foram crescendo e começaram a ajudar o pai. Aos poucos, ele foi deixando de mascatear.
Na loja Monte Líbano, Ayub trabalhava ao lado da esposa que gostava de atender no balcão e, segundo depoimentos, ela é que mais se destacava na área. “Meus tios contam que era ela quem negociava. Era uma comerciante fantástica. Tinha todas aquelas artimanhas para atrair o cliente”, diz Marcos Tadeu de Carvalho Sarkis, neto de Ayub e filho de Antônio Sarkis.
Ele conta uma passagem curiosa sobre como sua avó atraía os fregueses para a loja. “Antigamente as mercadorias eram amarradas com um barbante grosso. Minha avó pegava o nó do barbante e jogava na rua, em frente à loja. Os cavaleiros passavam e pegavam aquilo para fazer uma espécie de isqueiro para acender cigarro. Assim, ela os atraía para dentro da loja e eles acabavam comprando”.
Na época da Revolução de 1930, a loja Monte Líbano foi transferida para Silvianópolis e para lá foi toda a família. Com o tempo, o comércio naquela cidade foi se tornando difícil e, em 1945, os irmãos Antônio, Nascin, Sarah e seu esposo Juca resolveram montar uma loja em Pouso Alegre, a tradicional Casa Sarkis que existe até hoje na Rua Comendador José Garcia. O estabelecimento vendia calçados, perfumes, brinquedos, mas o artigo principal era o tecido.
Marcos, que hoje está à frente da Casa Sarkis, começou a trabalhar com o pai Antônio quando tinha apenas 14 anos. Antônio faleceu em 1980. Continuaram na loja Nascin, Sarah e o esposo Juca, e Marcos ficou no lugar de seu pai. Mais tarde, Sarah veio a falecer e Juca decidiu não trabalhar mais na loja da família. Nascin ficou como sócio da loja até 2005 quando vendeu sua parte para o sobrinho Marcos. Hoje, Marcos trabalha na loja ao lado de seu filho Guilherme. Marcos foi o único dos netos que continuou a tradição da família no comércio. Seu irmão Antônio Carlos Sarkis é professor de Educação Física.
Ayub continuou morando em Silvianópolis por cerca de 40 anos até seu falecimento, em 1972. Já sua esposa, Baduía, se foi mais cedo, em 1962.
Outro filho de Ayub, Farid Sarkis, tinha uma loja de armarinhos em Silvianópolis, mas acabou vindo para Pouso Alegre. Primeiramente, Farid construiu um imóvel na Praça Duque de Caxias, próximo ao Santuário e o alugou para o proprietário do chamado Bazar Joaquim dos Santos, que era a maior loja de armarinhos da cidade. Mais tarde, Farid fechou a loja em Silvianópolis, comprou o Bazar e veio definitivamente para Pouso Alegre. Hoje a loja Farid Sarkis e Cia Ltda continua na Praça Duque de Caxias, ainda no ramo de armarinhos.